quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A Roupa Nova do Rei



de Hans Christian Andersen





"Era uma vez um rei, tão exageradamente amigo de roupas novas,
que nelas gastava todo o seu dinheiro. Ele não se preocupava com
seus soldados, com o teatro ou com os passeios pela floresta, a não
ser para exibir roupas novas. Para cada hora do dia, tinha uma roupa
diferente. Em vez de o povo dizer, como de costume, com relação a
outro rei: "Ele está em seu gabinete de trabalho", dizia "Ele está no
seu quarto de vestir".

A vida era muito divertida na cidade onde ele vivia. Um dia, chegaram
hóspedes estrangeiros ao palácio. Entre eles havia dois trapaceiros.
Apresentaram-se como tecelões e gabavam-se de fabricar os mais
lindos tecidos do mundo. Não só os padrões e as cores eram fora do
comum, como, também as fazendas tinham a especialidade de parecer
invisíveis às pessoas destituídas de inteligência, ou àquelas que não
estavam aptas para os cargos que ocupavam.

"Essas fazendas devem ser esplêndidas, pensou o rei. Usando-as
poderei descobrir quais os homens, no meu reino, que não estão em
condições de ocupar seus postos, e poderei substituí-los pelos mais
capazes... Ordenarei, então, que fabriquem certa quantidade deste
tecido para mim."

Pagou aos dois tecelões uma grande quantia, adiantadamente, para
que logo começassem a trabalhar. Eles trouxeram dois teares nos
quais fingiram tecer, mas nada havia em suas lançadeiras. Exigiram
que lhes fosse dada uma porção da mais cara linha de seda e ouro,
que puseram imediatamente em suas bolsas, enquanto fingiam trabalhar
nos teares vazios.

- Eu gostaria de saber como vai indo o trabalho dos tecelões, pensou
o rei. Entretanto, sentiu-se um pouco embaraçado ao pensar que quem
fosse estúpido, ou não tivesse capacidade para ocupar seu posto, não
seria capaz de ver o tecido. Ele não tinha propriamente dúvidas a seu
respeito, mas achou melhor mandar alguém primeiro, para ver o
andamento do trabalho.

Todos na cidade conheciam o maravilhoso poder do tecido e cada qual
estava mais ansioso para saber quão estúpido era o seu vizinho.
- Mandarei meu velho ministro observar o trabalho dos tecelões. Ele,
melhor do que ninguém, poderá ver o tecido, pois é um homem
inteligente e que desempenha suas funções com o máximo da perfeição,
resolveu o rei.

Assim sendo, mandou o velho ministro ao quarto onde os dois
embusteiros simulavam trabalhar nos teares vazios.

- "Deus nos acuda!!!" pensou o velho ministro, abrindo bem os olhos.
"Não consigo ver nada!"

Não obstante, teve o cuidado de não declarar isso em voz alta.
Os tecelões o convidaram para aproximar-se a fim de verificar se o
tecido estava ficando bonito e apontavam para os teares. O pobre
homem fixou a vista o mais que pode, mas não conseguiu ver coisa
alguma.

- "Céus!, pensou ele. Será possível que eu seja um tolo? Se é assim,
ninguém deverá sabê-lo e não direi a quem quer que seja que não vi
o tecido."

- O senhor nada disse sobre a fazenda, queixou-se um dos tecelões.
- Oh, é muito bonita. É encantadora!! Respondeu o ministro, olhando
através de seus óculos. O padrão é lindo e as cores estão muito bem
combinadas. Direi ao rei que me agradou muito.

- Estamos encantados com a sua opinião, responderam os dois ao
mesmo tempo e descreveram as cores e o padrão especial da fazenda.
O velho ministro prestou muita atenção a tudo o que diziam, para poder
reproduzi-lo diante do rei.

Os embusteiros pediram mais dinheiro, mais seda e ouro para
prosseguir o trabalho. Puseram tudo em suas bolsas. Nem um fiapo
foi posto nos teares, e continuaram fingindo que teciam. Algum tempo
depois, o rei enviou outro fiel oficial para olhar o andamento do trabalho
e saber se ficaria pronto em breve. A mesma coisa lhe aconteceu: olhou,
tornou a olhar, mas só via os teares vazios.

- Não é lindo o tecido? Indagaram os tecelões, e deram-lhe as mais
variadas explicações sobre o padrão e as cores.

"Eu penso que não sou um tolo, refletiu o homem. Se assim fosse,
eu não estaria à altura do cargo que ocupo. Que coisa estranha!!"...
Pôs-se então a elogiar as cores e o desenho do tecido e, depois,
disse ao rei: "É uma verdadeira maravilha!!"

Todos na cidade não falavam noutra coisa senão nessa esplendida
fazenda, de modo que o rei, muito curioso, resolveu vê-la, enquanto
ainda estava nos teares. Acompanhado por um grupo de cortesões,
entre os quais se achavam os dois que já tinham ido ver o imaginário
tecido, foi ele visitar os dois astuciosos impostores. Eles estavam
trabalhando mais do que nunca, nos teares vazios.

- É magnífico! Disseram os dois altos funcionários do rei. Veja Majestade,
que delicadeza de desenho! Que combinação de cores! Apontavam
para os teares vazios com receio de que os outros não estivessem
vendo o tecido.

O rei, que nada via, horrorizado pensou: "Serei eu um tolo e não estarei
em condições de ser rei? Nada pior do que isso poderia acontecer-me!
" Então, bem alto, declarou:

- Que beleza! Realmente merece minha aprovação!! Por nada neste
mundo ele confessaria que não tinha visto coisa nenhuma. Todos
aqueles que o acompanhavam também não conseguiram ver a
fazenda, mas exclamaram a uma só voz:

- Deslumbrante!! Magnífico!!

Aconselharam eles ao rei que usasse a nova roupa, feita daquele tecido,
por ocasião de um desfile, que se ia realizar daí a alguns dias. O rei
concedeu a cada um dos tecelões uma condecoração de cavaleiro,
para seu usada na lapela, com o título "cavaleiro tecelão". Na noite
que precedeu o desfile, os embusteiros fiizeram serão. Queimaram
dezesseis velas para que todos vissem o quanto estavam
trabalhando, para aprontar a roupa. Fingiram tirar o tecido dos
teares, cortaram a roupa no ar, com um par de tesouras enormes e
coseram-na com agulhas sem linha. Afinal, disseram:

- Agora, a roupa do rei está pronta.

Sua Majestade, acompanhado dos cortesões, veio vestir a nova roupa.
Os tecelões fingiam segurar alguma coisa e diziam: "aqui está a calça,
aqui está o casaco, e aqui o manto. Estão leves como uma teia de
aranha. Pode parecer a alguém que não há nada cobrindo a pessoa,
mas aí é que está a beleza da fazenda".

- Sim! Concordaram todos, embora nada estivessem vendo.

- Poderia Vossa Majestade tirar a roupa? propuseram os embusteiros.
Assim poderiamos vestir-lhe a nova, aqui, em frente ao espelho.
O rei fez-lhes a vontade e eles fingiram vestir-lhe peça por peça.
Sua majestade virava-se para lá e para cá, olhando-se no espelho
e vendo sempre a mesma imagem, de seu corpo nu.

- Como lhe assentou bem o novo traje! Que lindas cores! Que bonito
desenho! Diziam todos com medo de perderem seus postos se
admitissem que não viam nada. O mestre de cerimônias anunciou:

- A carruagem está esperando à porta, para conduzir Sua Majestade,
durante o desfile.

- Estou quase pronto, respondeu ele.

Mais uma vez, virou-se em frente ao espelho, numa atitude de quem
está mesmo apreciando alguma coisa.

Os camareiros que iam segurar a cauda, inclinaram-se, como se
fossem levantá-la do chão e foram caminhando, com as mãos no
ar, sem dar a perceber que não estavam vendo roupa alguma.
O rei caminhou à frente da carruagem, durante o desfile. O povo,
nas calçadas e nas janelas, não querendo passar por tolo, exclamava:

- Que linda é a nova roupa do rei! Que belo manto! Que perfeição de
tecido!
Nenhuma roupa do rei obtivera antes tamanho sucesso!

Porém, uma criança que estava entre a multidão, em sua imensa
inocência, achou aquilo tudo muito estranho e gritou: 

- Coitado!!! Ele está completamente nu!! O rei está nu!!


O povo, então, enchendo-se de coragem, começou a gritar:

- Ele está nu! Ele está nu!
O rei, ao ouvir esses comentários, ficou furioso por estar
representando um papel tão ridículo! O desfile, entretanto,
devia prosseguir, de modo que se manteve imperturbável
e os camareiros continuaram a segurar-lhe a cauda invisível.
Depois que tudo terminou, ele voltou ao palácio, de onde
envergonhado, nunca mais pretendia sair. Somente depois
de muito tempo, com o carinho e afeto demonstrado por
seus cortesões e por todo o povo, também envergonhados
por se deixarem enganar pelos falsos tecelões, e que
clamavam pela volta do rei, é que ele resolveu se mostrar
em breve aparições...  Mas nunca mais se deixou levar pela
vaidade e perdeu para sempre a mania de trocar de roupas
a todo momento. 


Quanto aos dois supostos tecelões, desapareceram
misteriosamente, levando o dinheiro e os fios de seda
e ouro. Mas, depois de algum tempo, chegou a notícia
na corte, de que eles haviam tentando fazer o mesmo
golpe em outro reino e haviam sido desmascarados,
e agora cumpriam uma longa pena na prisão.

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